Um Sítio...Joaquim Vairinhos

Um Sítio...Joaquim Vairinhos
Poesia e Prosa

quinta-feira, 23 de outubro de 2014



Aproximei-me da boca da Galeria
era um trem de ansiedade que me acompanhava
não era exposição do Manuel Baptista
eram teus lábios e olhar doce que buscava
peguei tua mão mergulhando meus olhos nos teus
apreciei teu corpo espartilhado em vestido justo preto
nada me dizia o que iria acontecer
nem esperava ver teus olhos húmidos sorrirem
nem teu bâton com sabor a romã
nem tua mão nos meus cabelos em carícia contida
nada mais vi...
saí pensando nas partidas da vida !
Joaquim Vairinhos.
"Folhas", quadro de Manuel Baptista.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O tempo perdido na miragem do olhar
fluindo num estio outonal
traz consigo a saudade do mar
daqueles fins de julho
onde tempo se escondia nos sorrisos
e olhares de amores de estação.

não sabiam não. como eram felizes
jovens de então.

seduzido pelo som daquelas vagas
banhadas em espumas alvas
sentei-me em grãos de areia macia
buscando naquela tarde de verão tardio
imagens na memória envelhecida.

não vinham não. as imagens fugidias
que apareciam na retina do olhar
se confundiam na regular e contínua dança do mar
num entrelaçar de desejo outonal.


Joaquim Vairinhos
Foto de Joaquim.

domingo, 12 de outubro de 2014

Soltar a liberdade que existe em ti,
quem sabe, descobrir um paraíso
onde teus olhos são estrelas.


Prender os cabelos da aurora,
quem sabe, amanhecer na luz
onde teus olhos são sol.


Sonhar nos mármores de um luar,
quem sabe, encontrar tua alma

onde teus olhos são espelhos.

Cantar nos braços de uma criança,
quem sabe, recordar saudade
onde teus olhos são esperança.


Joaquim Vairinhos



Joaquim Vairinhos



Sentir a cor do poema nas rochas de um sol posto
na miragem de olhares urbanos gastos de fadiga.

São ásperas as pedras do tortuoso morro 
naquelas encostas de ervas atlânticas.

Vale o esforço na penumbra da tarde já gasta
desperta pelo levantamento da nortada fria.

Iniciada que foi a partida do astro encerra-se o espetáculo
começa a debandada.

Se Sagres é o promontório do altar da profana missa
é a lua a guardiã da noite que se aproxima.

Joaquim Vairinhos, Sagres.


Passa tão depressa o tempo no outono da vida
escorrem os dias pelas rugas da face 
num encontro programado com as páginas adormecidas

mãos cansadas recolhidas libertam saudades, amores
amizades.
dores e mágoas são no corpo as manchas da caminhada

frutos maduros não tapam juventude
eterna sabedoria do amadurecimento da mente
sempre confinada aos limites dos homens

com a eterna questão sempre presente
para onde vão ?

joaquim vairinhos


falta-me ousadia
para escrever sobre a morte.

sobre a minha !

ouso a vida
a alegria. os amores. as saudades.
as tristezas
as injustiças. as deslealdades.

mas ela
a morte, a minha,
está sempre em minha companhia.

que coisa !
de noite e de dia.

tentei fazer um pacto
daqueles. olhos nos olhos.
rosas brancas.
velas e champanhe.

ela não tem tacto
não sorri !
fria.
calculista.
vem de vestido sem cor
sem abraços de amor.

porra, sem pudor
sussurra-me :
chegará o dia que vens a mim
farto desse mundo cruel
de erros.
omissões.
falsidades e traições !

sei que assim será.
sei que ainda a vou desejar.
amar nunca !

mas que me leve. sim !

joaquim vairinhos


Passavam apressadas e cinzentas.
Carregavam silêncios.
Estranhos nadas brilhavam nos olhos.
Umas corriam. 
Outras talvez cansadas deslizavam.
Para onde iam naquele rio de pernas e braços.

Todas sabiam.
Eram normais os seus desejos.
Estranhos hábitos
aqueles quotidianos sem horizontes.
Asas para quê?

Toma o caos da vida. Toma a anarquia do sonho.
Mesmo sendo estranha a partida
cria a liberdade daquele outro caminho.

Joaquim Vairinhos.