Um Sítio...Joaquim Vairinhos

Um Sítio...Joaquim Vairinhos
Poesia e Prosa

sexta-feira, 30 de novembro de 2012


...na janela...
...a luz do luar...

...ou serão pirilampos...
...a brilhar...

...no quarto...
...sombras alongam-se...

...fazem pensar...


...saudades da terra natal...
...está na hora de voltar...

emilio casanova, in "Diário da Ilha"



Há os que pensam
que se aprende com a idade
não sei
sei que todos os dias
muda a realidade.

Talvez sentir a simplicidade
das coisas da vida
perceber a doçura de um olhar
acompanhar a beleza
de ave a planar.

Saber apreciar
conversa de criança
com um sorriso no ar.

Mergulhar inteiro
num pôr de sol
abraçar em cheio
uma lua de agosto.

Acariciar as rugas do rosto.
Criar lágrimas de doçura
no canto do olho.

Regar flores
que deixámos murchar
como quem pede perdão.

Não sei 
se aprendemos com a idade.

Sei que vivo a idade
querendo tudo aprender
com vontade.

Joaquim Vairinhos, in "Só & Cia"
Ilustração:foto google.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012


...sou uma linha de pontos de luz...
...carrego em meus braços...
...a energia dos universos...
...meus olhos raios de brilho...
...minhas células estrelas de versos...

...minha boca ciclone de ventos pacíficos...
...meu peito vulcão de calor em sentimentos...
...tenho os pés nos cometas...
...com as mãos agarro a terra...
...circulo entre planetas...

...mirando nos mares meus espelho...
...alimento-me de verdes florestas...
...perfumo-me com flores silvestres...

...nasci das ninfas do tejo...
...vivo do nascer ao pôr do sol...
...num rio de janeiro, fevereiro e março...
...e todos os meses que mereço...

...viva a vida...no amor em espaço...
...a que pertenço...

emilio casanova, in "Só & Cia"
ilustração:foto google.


Assentos ausentes
aguardam ao sol
que a ponte azulada
lhes traga
esses que os movem
mesmo cansados

no fim da tarde,
noite mesmo
muitas vezes,

e como chegam
sem sorrisos
alegrias guardadas
em domingos
com filhos e amigos:
penas para que as querem
se as garças brancas e
as gaivotas pretas
não são livres
nem aos sábados e
domingos,

que mais dói
não é canseira
não é trabalho
não é bobeira de
transporte...não

é viver numa ilha
sem conforto
sem saúde
sem educação
onde muitas vezes
se sente a prisão.

emilio casanova, in "Diário da Ilha"
ilustração: foto de joaquim

terça-feira, 27 de novembro de 2012



(Diálogo entre o poeta fingidor e sua musa leal)

Belo poema, por onde andas ?
A me enganar...?
Outras musas a procurar?
Excelente descrição do teu caráter,
como lamento ter visto tua alma semelhante à minha...
quem sabe tenha visto apenas o meu reflexo. 
Sabes poeta :

sou teu contrário,
teu oposto
teu avesso,
a criança que me habita é fiel e,
sabe muito bem o que quer e onde chegar !

Ahahaahahah...
Como vais bela e segura linda musa,
digo-te sinceramente : não és o que pensas que és...!

Sou!
tu que não me conheces...me julgas fácil
por ter me entregue tanto...
acreditado tanto...e,
isso
só prova a minha fidelidade...

Com essas certezas arrogantes, minha musa,
ainda vais ter um longo caminho a percorrer
nunca conseguirás perceber o que existe entre nós...

Já percebi o que existe entre nós
e não sou arrogante...poeta fingidor,
apenas estou acreditando naquilo que estou vendo...

Minha musa linda:
talvez daqui a 30 anos
compreenderás,
mas levar-me-ás sempre contigo...porque sou teu poeta,
o preferido.

Sim louco, poeta fingidor.
Compreenderás muito antes disso,
embora tarde, já muito tarde.

Adeus bela musa
que o teu afastamento te conduza
àquilo que queres ser...e,
que meu silêncio e afastamento sirvam para isso.

Da mesma forma que meu silêncio e afastamento te traga melhor entendimento...
embora tu já saibas o porquê de tudo isso.

Adeus musa,
é muito importante para mim os versos...
não faltes a essa promessa.

Não faltarei,
siga confiando em mim...
pena que não posso confiar mais em ti...
depois de tantas falsas promessas,
seu fingidor.

Sabes, jovem e esbelta musa...um velho agarra-se às memórias...
às lembranças e às saudades...
não vou dar-lhes a luz do dia...vou guardá-los.

Tu saberás como viver...velho louco,
já sabes...há muito já escolheste,
assim que prontos enviarei o meu amor de musa
não faltarei com a promessa que fiz,
não é do meu feitio
costumo saber o que quero e,
ser comprometida com as coisas e pessoas,
velho poeta fingidor.
Felicidades,
muitas, em todos os teus momentos...
creia, é meu desejo sincero
que encontres outras musas
tão dedicadas como eu.
Por mim vou mergulhar...
com as asas bem abertas e,
olhar fixo no infinito...encontrar um jovem poeta
não fingidor…não traidor.
Adeus...

Sou o maior infiel...sarraceno...
ahahahahaahaahah!!!

Agora irônico...
ironia não é digno de sábios...
meu velho.

Menti-te...não sou sábio...(gostaria de ser)...foi mais uma mentira...
para te enganar...abusar...usar...
mas fica sabendo que ironia é própria
de sabedoria.

Então, me enganaste...usaste, abusaste...que pena!

Segundo "tu", musa...eu sou isso tudo...e
talvez mais.

Não...segundo tuas próprias palavras e atitudes...

Ah! Por isso ...(segundo "tu")...mereço ser satanás...
vai...queima-me na fogueira...atira-me pedras...lincha-me...vai!!!

Tu estás te auto-flagelando, poeta
estás colocando palavras em minha boca...
estás a castigar-te...estás com raiva.

Vai...veste a "farda"...põe o cacete na mão...viseira na cabeça...e mata-me com bastão...
musa castigadora.

Pára...estás me machucando!

Sim...e tu...alma pura? Não?

Não. Sou impura, imperfeita,
apenas me entrego, amo..quero, desejo...
tu me deixou triste...sempre acaba me deixando triste!

Sabes musa linda…não tenho culpa da tua prisão...

emilio casanova, in "No jardim dos deuses"
ilustração: foto google.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012


Como te sinto...
nas minhas mãos
plasmada na pele
fluída nos meus rios
que de calor 
são sequiosos 

nas ternas lembranças
de teus suores .
Como te imagino
na vertigem das lagoas
doces de teu olhar
que me ajudam a viajar.
Como sorrio com teu sorriso
que me deixa enternecido
doce...apaixonado
levitando num espaço
entre nossos rios de sul
a norte em qualquer janeiro
de boa sorte.
Como te amo neste suave
abandono que me traz
mais ligado
por não te ter.

joaquim vairinhos, in "Só & Cia"

Navego na fina folha branca 
implantada no azul celestial
reflete-se no ambiente
a imagem desfocada de áreas 
caiadas
onde tanjerinas esverdeadas de amarelo 

aguardam seu tempo.

Questionas olhos vagos no horizonte
sobre as copas verdes
para onde vão os sonhos ?

Uma lentidão gélida
passa das mãos às rugas dum coração
que tanto sonhou !

Os sonhos não voam...
não andam...
não navegam...
agem disfarçadamente
fazendo-nos voar
viajar
navegar
roubam à mente imagens
lembranças
saudades
antecipando anseios
aspirações.

Vai com teu pensamento
leva teu sonho contigo.

joaquim vairinhos, in "Só & Cia"
ilustração: S.Dali

domingo, 25 de novembro de 2012

Pedro Abrunhosa e Sandra de Sá - Não sei quem te perdeu

Dizzy Gillespie and the United Nations Orchestra - London 1989 [Full Con...







Repousa corpo entre polpa de dedos.
Felicidade invade no fluir do calor de sol
raptado, num interior crescente de paixões,
amores, seduções, ódios, indecisões.

Sentimentos frustrados são pardais,
saltitantes sem canto, rodopiando 
em consoantes e vogais.

Construção em muros de versos cobertos.


Viajam nos labirintos em amálgamas
de palavras necessárias. Redescobrem-se
na impenetrável estrutura semântica de
densidade absoluta do que penso ser
meu ser.

Voam para murais na vontade incessante
de dizer presente na partilha de redes sociais.

Assim crescem meus versos. Feitos sem destino.
Percorrem rostos e rostos fazendo caminho.

joaquim vairinhos, in "Só & Cia"

nos bicos os sorrisos 
que lavram a terra
humedeciam
presentes azuis 

no horizonte

com fio de oceano
ao fundo
olhos virgens
cerravam-se
no sono profundo
com pombas brancas
anunciando
um novo mundo

eram belos os sons
da sinfonia
sábio homem
preparava
cenários de caminhos
para o amor
para a poesia
para a sabedoria

emilio casanova, "No jardim dos deuses"


Foi longa a construção de pedra sobre pedra
grão a grão 
numa casa conquistada de silêncios
onde circulam melodias em completas
reflexões 

foi tortuoso o caminho
nas diagonais do mar na face da terra
com sementes de sintonia
pelos símbolos da geometria
em cadeiras de aprendiz

foi no sopro da lua
que atingi o sol
para aquecer minha morada
que enchi de ervas e
ramagens amarelas de acácia
para alimentar
minha catedral de sabedoria

que vigio
no silêncio de olhos
guardados em liberdade.

joaquim vairinhos


Solidão

Quando os sons caiem no vazio
silêncio fica atroz.

Manhãs/tardes sem voz

criam na pele arrepio.

Comigo faço a troca.

Palavra gira volta cai
na resposta do labirinto
dos sentidos.

Saída sem solução é caminho
errado.
Melhor será prender
silêncio no coração.

joaquim vairinhos, in "Só & Cia"
ilustração : foto de emilio







2000 e,
não sabemos quantos :

dois mil e sete
um pinho mata a crise

dois mil e nove
um santos arruma
a crise morta de
dois mil e sete

dois mil e onze
um gaspar aniquila
o arrumo da crise
de dois mil e sete
mata a crise morta
de dois mil e nove

assim : se inicia
o princípio do fim
no fim do princípio

cada vez mais
o povo sofre
nas bordas
do precipício

até quando
dois mil e tanto.

joaquim vairiinhos, in "Tanta coisa para dizer"


ilustração:foto google

Cada vez mais
te vejo Portugal,
com o mar ao fundo,
como da Europa
um quintal.
Uns meninos a
brincar na praia,
uns velhos a olhar o mar,
e tu Portugal a naufragar.

joaquim vairinhos

ilustração:foto de maria da paz

terça-feira, 20 de novembro de 2012



“ Dos Cânticos ”

1:

Minha pomba nos vãos do rochedo...
que te protege
da ignomínia e das invejas
porque te escondes
se tua beleza é um dom da natureza
não uma vergonha

mostra a tua face
deixa ouvir a tua voz doce
melodiosa de sabiá
bela face a tua de Afrodite
que mostra gratidão
numa terra sem estrelas
sem sementes de perdão.

2:

Vem minha amada...corramos ao campo...
entre pinhais pelas veredas pisadas
dos namorados
deitei-mo-nos nos verdes prados
entre flores silvestres
que desabrocham perfumadas
recebamos a natureza pura
dos nossos corpos
cheiremos os aromas dos amantes
bebamos o mel dos encantos
dormiremos abraçados
na terra mãe que nos abençoa.

3:

Ah como estás bela minha amiga
com esse teu vestido branco de pomba
Ah como brilham teus olhos buscando os meus
Oh amado belo que me fazes sonhar
como é doce teu amar
Oh como a nossa cama é suave
entre a ramagem
dos pinheiros da nossa casa
Ah minha amada como perfumas meu coração.

emilio casanova, in " Dos Cânticos/em elaboração"

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Pelos caminhos da literatura
quanto sofrimento 
quanta perplexidade
quanta loucura
da poesia à prosa 
de Tolstoi a Proust 

de Joyce a Dostoiévski.

Tentativas continuadas
de superação em superação
através do espírito
sua representação
sua esperança
sua memória
em viagens da mente humana.

Pela literatura dobra-se o cabo
das tormentas.
Viaja-se em atividade iniciática
na abordagem da escrita:
vai-se pela angústia
na busca de caminhos novos
para expressar sentidos e
superar fora dos limites
a bendita normalidade
num trabalho de confronto
com sua própria psique.

Procura-se esse filão
da felicidade
na normalidade da
antifelicidade. Encontra-se
em pequenos flashes :
a serenidade.
joaquim vairinhos

a poesia embriaga : os sentidos
bela musa mulher

transporta em viagem no pensamento
leva-nos em espuma para o mar

carrega-nos nas nuvens a escrever na casa
do vento

umas vezes transborda em alegre sinfonia

que só seus amantes a acompanham

umas vezes troca palavras numa magia
em jornadas de noite que se vestem de dia

outras vezes entristece: veste-se de inverno
que só seus amantes a entendem

outras vezes mergulha na filosofia
na morte à procura de Dante no inferno

outras vezes é a Beatriz
outras és tu bela mulher :

quando se veste de feliz Afrodite
quando seduz Danae pelo ouro de Júpiter
quando tudo reduz em amor de Pedro pela bela Inês
quando esconde a bela musa de Camões.

emilio casanova, in "Poesia ninguém compra"


Tamr al-Hindi

se te olho de dia
perto do meio dia
estás forte
pujante

és a fonte
da sombra
que preciso
se te vejo
pela manhãzinha
surges fresco
meio enrodilhado
como companheiro
de um dia
bem madrugado
se te vejo à noite
com teus braços
bem abertos
abraçando a noite
das garças brancas
despertas
meus medos
sombrios
que sempre guardo
dos tempos
de minha infância

bom dia tamarino
amigo

emilio casanova, in "Só & Cia"

O que ficou do tempo,
dos minutos, das horas
dos dias
é tão pouco,
que pouco importa

a não ser
alimento de sonhos,
lembranças,
recordações


que se esvaem ao nascer
do sol
lá longe, e
voltam ao fim da tarde
quando aquela saudade
invade

aperta solidões na liberdade
presa, frágil de
emoções
que assolam mente,
veias,
carne esquecida

oh, escravos que somos
desse tempo que vivemos

cavalgam tempos
sonhos de nossa fantasia.

emilio casanova, in "Poesia ninguém compra"

terça-feira, 13 de novembro de 2012



EUROPA

Frio estende-se pela montanha gelada
arrasando a vaga trémula do mar
verdes florestas de pinho
flutuam em marés hirtas
num inverno contraditório
com fragilidade dum sol acobertado
em valores crispados de crise
na rigidez de ventos inconstantes
que sopram de gargantas profundas
carregadas de realidades frias
raios de sol espreitam
na madrugada sem esperança
de manhãs endividadas
tolhidas em rede de exploração
gérmen de formas de revolta
na contradição.

Joaquim Vairinhos,
Ilustração: Foto de manifestação dos "Indignados"

"Máquinas de fantasia"

segunda-feira, 12 de novembro de 2012



Minha querida...linda...
perguntas-me o que sou :
se Emilio...se Joaquim

fui sempre Joaquim
sempre Emilio,
na minha profissão,
na minha vida política,
fora/dentro...

agora,

aposentado da política
soltei a poesia de minha alma,
de minhas emoções,

de dia
fiz-me Emilio,

na clandestinidade do meu "eu"
utilizava Emilio na política,
na profissão de professor
nos amores
nas paixões
nas desilusões
no meu interior,
com disfarce de Joaquim.

Na intimidade
fui sempre Emilio...

Joaquim é o corpo,
Emilio é a alma,
a essência espiritual
de mim,

que afaga Joaquim...

emilio casanova, in "Só & Cia"


"...na escuridão do seu quarto...
minha alma ilumina-se..."
...uma quentinha de amor

junta uma manhã de domingo
com tua amada
adiciona uma boa
quantidade de carinho


sal em suor quanto baste
muita audácia
na pimenta


deixa que ferva
em lume brando
com tempo suficiente

terás um amor
que satisfaz os dois
a contento

num início de um esplendoroso
domingo

emilio casanova, in "Só & Cia"
apetece-me agora
deitar minhas costas
nos grãos de areia
da praia
respirar o cheiro
das gotas do mar
viajantes no ar
fixar meus olhos
no firmamento azul
segurando a cabeça

nos dedos entrelaçados
com meus joelhos
dobrados
pés enterrados
sim porque não
vou fazer o que me apetece
indiferente a quem pise
junto de meu corpo
indefeso
quero esquecer mundos
de sofrimento
de um lado de outro
à frente atrás
quero parar assim
subitamente
e por momentos
dar-me este presente

emilio casanova, in "So & Cia"
quando visito minha velha
primeira casa
aquela da minha infância
através dos caminhos profundos
de minha memória
é como se fosse 
repousar no passado

não ouso descrevê-la 
porque só eu

em minhas lembranças
a possuo
está em mim no ser
naquele interior do ser
onde vivem as recordações
de minha intimidade primeira
inserida

centro de sonhos
revisito-a pela poesia
percorrendo os cantos
de meus primeiros devaneios
sim ela existe
como casa de lembrança
sonho
retida nas sombras
para lá do passado verdadeiro

não existindo mais

emilio casanova, in "Só & Cia"

quarta-feira, 7 de novembro de 2012


NO EMBALO DA REDE DOS VERSOS
NÃO ESCREVEREI PARA OS OUTROS
EMBORA ADORE QUE OS LEIAM
VERSEJAREI PARA MIM
PARA MEU MUNDO INTERIOR
ALIMENTAREI MINHA ALMA
POR PRAZER E FELICIDADE
E COMO É DELICIOSO
O QUE SINTO QUANDO ESCREVO
ME ENVOLVO 

COM PAIXÃO
NUM AMOR DE VIRTUDE
ACARICIO AS PALAVRAS
MORDO AS SÍLABAS
ENGULO OS DITONGOS
SABOREIO OS VERSOS
E BUSCO POESIA NELES
NA HUMILDADE DA ENTREGA

COMO NUM CORPO DE MULHER E SEUS PRAZERES !!!

Joaquim vairinhos, in "Só & Cia"

terça-feira, 6 de novembro de 2012



De tua relatividade andamos na vida
procurando, uns mais de que outros 
em lampejos e fragmentos: a felicidade

materialidade urbana
no acumulo de bens dinheiro

património, não tem matrimónio
com felicidade

escrevo a ilusão de suspender o tempo
invertendo meu olhar para dentro

corro nesse rio do pensamento
na gravidez da espera
na esperança
de que amadurecimento transforme
o tempo na intuição
na inspiração
na visão de sabedoria necessária
à liberdade da palavra
refém
de labirintos metafísicos embebidos
da cultura social

uma marca que rege gerações
vincada no quotidiano

até quando.

joaquim vairinhos, in "poemas vadios"
ilustração : Salvador Dali (google)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012



e,
não penso que vc esteja
a flertar comigo...
nada me incomodaria se o estivesse...
até gostaria...

há algo mais vivo
que o ato de seduzir ?

seduziu eva
seu machão
de nome adão

e, tudo começou por aí
dizem
que a culpada foi
a serpente

coitada

simples instrumento
da sedução
foi condenada
a degradação permanente

enviada para os cantos
do inferno
onde arde
eternamente
quando seu ato
de unir
pela sedução
mãe eva
pai adão
foi a sublime salvação...

emilio casanova, in "poemas vadios : outros poemas"

no feriado adormeci 
minhas mágoas...
amanhã
elas virão
serás tu com doces
águas...
transportadas no teu
regaço
que farás do dia
a vida valer a pena

joaquim vairinhos, in "poemas vadios"


Grito um rio
na paisagem desnudada,
no instante de tuas
mãos presentes.

Em construção,

fabrico imagens desejadas
nas metades de sonho
que restam abandonadas,
na esperança,
de voltar ao rio
nas suas margens.

Velas apontadas ao vento
castram ondas,
rompem vagas
na face do tempo,
seu irmão.

Como é tarde
e, a noite de lua molhada,
com o vento,
o rio,
e o tempo
na busca do abrigo
em mansarda divina,
cansada de sonhos
que não querem
nas mantas da lua
aborrecer os amantes,
ingénuos de amores
persistentes,
adormece nos braços
de um amor qualquer.

emilio casanova, in "poemas vadios : outros poemas"

mulher : de vermelho vestida
teu sangue rubro transborda

invasor de tua veste
apela num calor animal
ao ardor destemperado
do amor insaciado
rico na entrega que despe

refrega gestos beijos
gritos e ais
tudo o que não é demais
na dádiva
posse verdadeira

como agora seria veia
artéria
para te levar direto
numa transmissão total
ao centro de decisão emocional
te sugar no sangue
esse vermelho que te cobre

que te envolve
num colorido de transgressão...

joaquim vairinhos, in "poemas vadios"
ilustração: foto google