Um Sítio...Joaquim Vairinhos

Um Sítio...Joaquim Vairinhos
Poesia, Prosa e Música.

sábado, 9 de junho de 2018



Pensar duas vezes para quê, desnecessário, não vale a pena
Se a morte te chegar – reza- e que te leve
Se ela te faz esperar – espera que alguém te trate paliativamente
E se não souberes o que isso é – aprendes rápido quando ninguém te chegar ao pé
Não tenhas pressa então – é preciso é viver com a comodidade de sofrer
Tua partida não pode deixar de ser dorida - tens que pagar os males da tua vida
Isso, a qualidade da sua preparação está na mão de quem da nossa vida não trata
Não te preocupes tens sempre uma saída : comete homicídio - mata tua pessoa!
Serás sempre absolvido por teres cometido suicídio.
Joaquim Vairinhos, 29/05/18




A CARTA DA IRENE
Decorria o ano de 1996. Nessa data desempenhava o cargo de autarca no Município de Loulé. Certo dia recebo uma missiva a pedir auxílio. Tantas que recebi. Irene era a autora desta carta enviada ao presidente da Câmara.
- “Snr. Presidente, há muito que me tinha ocorrido escrever-lhe esta carta, mas ao mesmo tempo vinha-me aquela intuição de que nada adiantaria. Mas hoje decidi escrever-lhe e o motivo pelo qual o estou fazendo, deve-se ao facto de eu e os meus irmãos, pais e vizinhos, residirmos nos Matos da Picota, vivermos numa angústia total, por não termos electricidade em casa. Snr. Presidente, a palavra angústia é insuficiente para descrever o significado da falta de electricidade a esta altura do século; para toda a gente mas principalmente para uma jovem estudante que estuda para mais tarde optar por um futuro melhor.”
- “ Mas como ?” – prossegue a carta da jovem estudante- “se lhe falta o essencial que é a luz ?... foi difícil eu fazer o 12º ano, estudando à luz da vela, mas a minha teimosia foi maior e felizmente consegui terminar o ensino secundário , mas em consequência disso hoje tenho a vista muito cansada, na qual eu não consigo ler por muito tempo sem usar óculos. Pois também era algo de esperar porque afinal estudar dos seis aos dezoito à luz de velas não é brincadeira nenhuma. E não queria que esta situação voltasse a acontecer com as minhas duas irmãs que também estão a estudar, e com outras crianças minhas vizinhas que vivem a mesma situação.
- Mais adiante diz Irene na sua carta – “ Imagine ver o seu filho a estudar por uma escassa luz de vela , levantando-se de manhã em plena escuridão para ir à escola . Pois afinal muita gente diz e é quase verdade – QUEM NÃO TEM LUZ NÃO TEM NADA. “
- Como não dar atenção á justiça deste pedido ?
- Accionados os serviços, foi no dia 15 de Outubro de 1996 pelas vinte horas inaugurada a instalação de energia eléctrica no lugar dos Matos da Picota, na presença dos vinte e cinco moradores. Foi Irene que carregou no botão do sistema.
- Nunca soube Irene que dos meus três até aos 16 anos estudei, brinquei, comi e dormi com o velho candeeiro a petróleo que dava luz à minha modesta casa onde vivi com minha mãe e minha anciã bisavó
.
Joaquim vairinhos, in “Confissões”.
Foto da Inauguração com Leitura Pública da Carta.



Abro meus olhos ao acordar do sol,
entristeço sem ti
tua imagem que me acompanhou
no sono em teus braços :
parte !
fico só contigo na mente,
no meio da cidade que passa indiferente
aos sofrimentos da gente
como tento prolongar o tempo de dar bom dia
fico espreguiçando contigo, de olhos cerrados
para não quebrar a magia desses momentos.
Joaquim Vairinhos, in "Confissões ".
Foto Google.