nunca soube seu nome
se era de planta pássaro ou lugar
sei que tinha silêncio de
melancolia cintilante nas íris do olhar
talvez maria
como o oiro do trigo
nos lábios da terra
alentejana
quem sabe isabel
nesse profundo olhar
da sombra do vento
que passa nas tardes
redondas do sol pôr
apertei suas mãos
como se fossem novelos de lã
levei-as aos lábios
como se acaricia água cristalina
da fonte ou a pele suave
de criança
soltei seus dedos
para a liberdade das palavras
que dançaram
na magia do momento
soletrei esses versos
como estrelas
na cadência das batidas
de sangue invadindo como chuva
a planície do ventre
nuvens de seda
brotavam dos lábios
em murmúrios cúmplices
de areia
invadida pela energia
das ondas brancas
da maré cheia
a deusa que julguei ausente
viajou na brisa suave
de espumas livres
nas esquinas da mente
Joaquim Vairinhos, in "Confissões"
Foto de Fernando Romão-Seara Alentejana.
correm aqueles pêndulos
em suas pontas de marfim
inscrevem nas águas
palavras ditas sem fim
são seios de verdes folhas
castrados em prazeres de lágrimas
são lábios em ramos de cetim
rios de florestas sem mágoas :
se corpos se liquefazem
nas tranças molhadas
se bocas bebem fogos
daqueles mares de oceanos
se chuvas cobrem sombras
dos princípios iluminados
são cenários de alma
naquela busca eterna de mim.
Joaquim Vairinhos
e havia maria
e havia a taça de vinho tinto
entre a toalha de renda branca
e o brilho do teu olhar. lunar.
e havia tudo em emoção, naquele
doce palavrar. era de coração,
para coração ao som da música no ar.
e havia aquele arrastar envolvente. do jazz,
dando melodia ao ambiente. não parava de
te olhar.
e havia minha mente construindo
este ato, naquele lugar. por mais fantasia
que fosse. era lá contigo.
que queria estar.
emilio casanova, in "Só & Cia"
naquele lugar
e percebi que há mais primavera,
nos grãos de areia da praia. em suas dunas
de músculos de espuma. de manhã quando
me levanto. bem cedo.
e caminho por ela acariciando meus pés frios.
a solidão não me embarga a garganta,
a comoção não faz brilhar meus olhos.
a tua lembrança que me acompanha. sim.
sem querer viver outonos em primaveras
de sonhos. percebo que há mais vida nas palavras,
nas rosas vermelhas sem enganos. nos cravos
que alimentei na esperança durante anos. e anos.
chegam os dias de sol com sua doçura.
os perfumes e os cantos das aves que me guiam,
na luzidia claridade de novos dias,
são minha companhia. na permanência dos instantes.
março vai deixando abril chegar. nuvens vão
esfarelando o horizonte. trinados e risos
enchem o pátio. pergunto como chegar.
aquele lugar onde. sem defesas, sem rosas.
não sei voltar. ser pleno é mito. ser feliz é sonhar.
joaquim vairinhos, in "Só & Cia"
Nos teus olhos lavo mágoas
no teu sorriso oiço melodias
na tua pele
não imagino o que sentiria,
por muito que tenha vivido
sei que de ti dependeria,
como teus olhos e sorriso
anunciam.
É na essência de cada um
na originalidade pessoal
que está o sal e a pimenta,
e pelo que vejo
meus olhos pressentem,
contigo,
minhas mãos tudo sentiriam.
navego
nas palavras
oceanos
rios
lagos lagoas
secam em virtuais
caminhos
passo
volto a passar
de nada me serve
estás sempre no mesmo
lugar
sempre com mesmo
olhar
sempre com mesmo
sorriso
e eu com desejos
de te abraçar
de te agarrar
de te cheirar
para sentir
na tua pele
o sal do amor...
emilio casanova in " 15 Poemas para Ti..."
E o silêncio fez-se corpo
em imaginação absorvente
nas alvas dobras do carinho
minha boca era a tua
naqueles lábios
de ansioso desalinho
eram verdes os diamantes
nos olhos de estrelas
sorridentes
nesse escuro universo
eram alvas as madrugadas
de rosas em lençóis voadores
onde alcançavas
os sons da montanha
nos picos agrestes
de himalaias de esperança
mãos restaram cheias
de brancas pétalas
no tapete adormecidas.
Emilio Casanova