Um Sítio...Joaquim Vairinhos

Um Sítio...Joaquim Vairinhos
Poesia, Prosa e Música.

sábado, 21 de dezembro de 2013




E neste cheiro a podre milenário –
vale a pena se quer dizer que são
filhos da puta ?
……………………………Jorge de Sena

Com este cheiro podre de figurantes 
paridos numa democracia mirabolante,
vale a pena se quer dizer que são
filhos da puta ?

Quando os malandros
ganham sempre as guerras,
há aqueles jovens patriotas
cheirando a naftalina de armários
dum estado novo, arautos
daquela velha esperança,
vale a pena se quer dizer que são
filhos da puta ?

Quando os patriotas
que mandam os velhos morrer,
os jovens emigrar, multidões públicas
para o massacre da pobreza,
vale a pena se quer dizer que são
filhos da puta ?

Eu protesto, tu protestas, ele protesta,
e eles nada mudam
ou mudam ainda mais,
vale a pena se quer dizer que são
filhos da puta ?

Joaquim Vairinhos, (com Jorge de Sena )

domingo, 8 de dezembro de 2013



Sonhos não passam de sonhos

Sonhei que te conheci
sonhei que me convidaste para ir ao teu quarto
sonhei que te acariciei
sonhei que me correspondeste
sonhei que te entregaste numa ternura sem fim
sonhei que gostava de falar contigo
sonhei que gostavas de falar comigo
sonhei que queria estar contigo
sonhei que querias estar comigo
agora sei
que devo viver dia a dia
como se cada dia fosse único
agora sei que não existo
e que tu foste uma invenção minha
perdoa-me por te ter inventado
perdoa-me por gostar de ti...

Emilio Casanova, in " Palavras Adiadas "

sexta-feira, 15 de novembro de 2013






Lavo do orgulho impurezas de ciúme
convencido que as flores rústicas
não eram para meus olhos,
seguem sempre seu caminho
emergentes da sua pele,
galopantes em ancas trémulas.

Tangiam seios plenos em manchas
negras, provocando esgares de furiosa 
luxúria, soçobravam ausências de posse
amassadas no sofrimento da carne
como lapas em rochas cobertas
de mantos alvos, gélidos
nos sentimentos distantes.

Com mãos prendendo o tempo
deixando correr amores sem destino,
não quero assistir ao verde cais
que já foi meu porto. São horizontes
perversos esses acéfalos maquinantes.

De desencontros em ordeira cadência
cavando novos destinos anunciados,
de impaciência subsistem 
nos amores que sempre duram,
mesmo que restem vagos desejos,
nos temporais que inundam a floresta.

Joaquim Vairinhos

quinta-feira, 7 de novembro de 2013


Camisa com macaquinhos

Reciclei casaco no contentor de roupa para pobres

colei camisas ao corpo mostrando a garganta
e um blusão de couro de vaca com um metro de sul,
de que me orgulho passeando quilos de ar de criança.

Na minha cidade de vez em quando nasce a esperança.

Na terra verde de primaveras
quis mostrar meus versos
de desejos insolentes,
que tormentos para a cabeça daquelas gentes!
Ai, como me fez falta o casaco e a gravata !

Se o céu é quente no azul doirado

e as ruas nas suas calçadas amantes,
que admiração fazer versos ardentes !

Se as musas admiradas pela minha arte

me inspiram a fazer versos alegres e contentes
só tenho que correr à loja para bordar aquela camisa
de corte conservador com macaquinhos no colarinho .

Joaquim Vairinhos,  in...

Ser especial...

Se do sol que brilha para todos já não sou eleito
Se dos olhares das estrelas não sou procurado
Se venho contigo dos tempos imemoriais da história
Se meu hoje não brilha na tua memória
Se meus amanhãs não estão nos teus horizontes

Pergunto : a quem entregaste minha alma
Que a sinto da tua totalmente fora …

Joaquim Vairinhos, in ...


Joaquim

Passa das seis você deve estar na cama
A noite visita você cedo na canseira do seu dia
Sua mãe tem pressa para seu acordar
São muitas as tarefas a ter em conta

Com palavras de confiança você se prepara
Colégio na mente cheia de lembranças
Ao longe o tempo que não passa
Aqui ele corre em água fria na espuma

Dos olhos cerrados soam vozes que apressam
Toalha roupa cobre seu corpo
Num café e bolo maltratado assobia :

Ah! Meu pai, como você demora
Nessa terra portuguesa de meus avós
E eu aqui neste Rio que me preenche
Ainda mais um dia…

Joaquim Vairinhos, 06/11/13

terça-feira, 5 de novembro de 2013



Ser português

O mar de sono que submerge
me enterra neste fado
é parte do meu quotidiano
de carne e ossos num corpo amassado.

Quem o acode, quem o sacode 
em veleiro naufragado
deste sono que se aproxima, profundo
em fins de vida intensa
com teorias, dogmas e poesias,
e outras coisas deste mundo.

Quem me salva deste único caminho
servidão marcada no destino
que enraíza nesta terra sem pão,
sem chão, sem grão,
onde germinam braços de solidão.

Joaquim Vairinhos