quando olho tua foto
meus dedos ajeitam teus cabelos
docemente
meus olhos admiram as curvas suaves do teu rosto
com meus dedos suaves
passo pelos teus lábios
com meiguice
aperto carinhoso
tua face
beijo teus lábios
lentamente
aspirando tua alma
para eternizar o momento.
emilio casanova
Tu...tu...sim
Na minha ilha de Ítaca
sem Penélope
só...
com muito amor reservado
como tesouro
escondido...segredado...
guardado...
aguardo
tuas colunas alvas
no espelho das águas
calmas da baía
esperando o milagre
de te encontrar
naquelas noites de agosto
onde o luar vem ter
connosco
para nos abraçar
nos seduzir
bem na bordinha do mar
na suave almofada
de areia
que afaga corpos
ansiosos...
ofegantes...
refrescados pela suave
brisa da alma do vento
que seduz os amantes...
aguardo
sabendo que numa noite
chegarás
que importa o tempo
simples suspiro
de momentos
na eterna infinitude
da existência...
virás
sinto tua permanência
porque estás
vives
alimentas
este corpo
casa tua em união
com os espíritos
dos raios do sol
das nervuras das folhas
nas copas verdes
cinzentas
das irmãs vigias
das águas
em frondosas companhias
chegarás
para o festim
de nossos corpos
eu em ti
tu...tu...sim !
emílio casanova, in "No jardim dos deuses"
como são esbeltas as folhas secas
em seus tons de terra amarela de sol
no gris dos dias da mãe d'água
recolho bênção das saudades queridas
tintas que pintaram passado não desbotam
nem arco-íris se lava nas gotas
alma alheia é minha irmã
é minha amiga minha amante
ela também sou eu na primavera
onde tudo começa
joaquim vairinhos, 25/01/2013
Cura de Schopenhauer
Não ter projetos...
não ter aspirações...
não ter esperanças...
estar satisfeito :
com seu quinhão
aceitar o que o mundo
lhe concede no intervalo
entre um nascer de sol
e outro...
viver assim
querendo nada
como schopenhauer
sem desejos
sem amores
para ser livre
penso mínimo
não fumo
não bebo
restaurantes não vou
sem televisão
sem rádio
sem computador
terei depressão
vontade de deitar no lixo
telemóvel
sentei-me
procurando um caminho
para continuar :
na busca de salvação ?
numa sólida relação ?
no amor ?
na compreensão das diferenças ?
no querer conhecer
meus limites...
entrei pelo livro dentro
ficando cercado
por palavras e frases
que me isolaram
de tudo nada
que me rodeava
joaquim vairinhos, in "Só & Cia"
quando permitiste
que entrasse no teu olhar
soube
que a caminhada
no teu inverso
iria ficar inscrita
nos meus versos
não em folhas de papel
com tinta vulgar
gravados sim
com doces murmúrios
de mel
emilio casanova, in "15+5 Poemas para Ti"
ilustração : Marc Chagall
de ti para ti
tu estavas à minha espera
para jantar
e eu não mais conseguia lá chegar
ia atrasar-me
porque: ainda tinha de ir tomar banho
por-me bonita para ti
para mim...
havia sempre algo
alguém...
que travava meu caminho
agarrando meu tempo
mais uma vez
olhei a sintonia
apressada do relógio
não te queria perder
pelo caminho
mas o sonho não parava
arrastava-se
para pesadelo...
nisto um volte face
a sorte mudou:
fui acordada pela chamada
estridente de telemóvel
minha filha mais velha
sofia a minha salvadora
de pesadelos
chegou
ainda a tempo
de ver teu sorriso
iluminado pelas velas
da mesa
emilio casanov
Suave e delicado joelho
daquela bela rapariga
resta divinal
naquele horizonte novo
onde tempo se recolhe
reverenciando
a forma do rendilhado
da folhagem embebida
no espaço sem cor.
A tarde parou seus braços
desligada do matraquear
da velha barca navegante
de sopros deslizantes.
Há um sedoso e fresco
ar naquela janela
onde quadro de nobres
formas e tintas
desafiam magistrais pintores.
Quem é ela aquela pérola
de ourivesaria humana
em recanto abrigada
navegando em anseios
luminosos na figura
volátill de ágeis dedos
em consonância com
suas belas pernas
presas em calcanhares
calçados ?
Como são poderosos
os murmúrios
da mãe natureza.
joaquim vairinhos, "So & Cia"