Um Sítio...Joaquim Vairinhos

Um Sítio...Joaquim Vairinhos
Poesia, Prosa e Música.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013


quando permitiste 
que entrasse no teu olhar
soube 
que a caminhada
no teu inverso
iria ficar inscrita
nos meus versos
não em folhas de papel
com tinta vulgar

gravados sim
com doces murmúrios
de mel

emilio casanova, in "15+5 Poemas para Ti"
ilustração : Marc Chagall

terça-feira, 22 de janeiro de 2013



de ti para ti

tu estavas à minha espera
para jantar
e eu não mais conseguia lá chegar 

ia atrasar-me

porque: ainda tinha de ir tomar banho
por-me bonita para ti
para mim...

havia sempre algo
alguém...
que travava meu caminho
agarrando meu tempo

mais uma vez
olhei a sintonia
apressada do relógio

não te queria perder
pelo caminho

mas o sonho não parava
arrastava-se
para pesadelo...

nisto um volte face

a sorte mudou:
fui acordada pela chamada
estridente de telemóvel

minha filha mais velha
sofia a minha salvadora
de pesadelos
chegou

ainda a tempo
de ver teu sorriso
iluminado pelas velas
da mesa

emilio casanov

Suave e delicado joelho
daquela bela rapariga
resta divinal
naquele horizonte novo
onde tempo se recolhe
reverenciando
a forma do rendilhado
da folhagem embebida
no espaço sem cor.
A tarde parou seus braços
desligada do matraquear
da velha barca navegante
de sopros deslizantes.
Há um sedoso e fresco
ar naquela janela
onde quadro de nobres
formas e tintas
desafiam magistrais pintores.
Quem é ela aquela pérola
de ourivesaria humana
em recanto abrigada
navegando em anseios
luminosos na figura
volátill de ágeis dedos
em consonância com
suas belas pernas
presas em calcanhares
calçados ?
Como são poderosos
os murmúrios
da mãe natureza.

joaquim vairinhos, "So & Cia"


Cala
não digas nada
ouve como se fez
silêncio

amor chega assim
de repente
sem ruído

doce 
docemente
vem mexer
com a gente
em segredo
na poesia da vida

cala
deixa o silêncio
crescer
virar palavra
na intimidade
dos dias

ouvirás :
meu amor...

emilio casanova, in "15+4 Poemas para Ti"

terça-feira, 15 de janeiro de 2013



Fui ser feliz e
não volto,
muito bom

e viver na Lua
o melhor

somos vizinhos
eu e tu,
ainda não nos encontrámos

vives na parte brilhante

vivo naquele lado
com vista para as estrelas
às vezes venho apanhar um pouco de sol
mas nunca te vi

será que vives mais a sul
e não tens norte
mas sim muita luz
muitas estrelas
para sempre sorrir

será quando ando
por ali
que estás a sonhar,

e por isso nunca te vi

sabes,
gostaria de te encontrar

na lua,
ou em qualquer lugar.

emilio casanova, in "No jardim dos deuses"

mas é verdade...meu amor
o que é um simples oceano

uma gotinha de água

nem isso
é muito menos
no espaço
donde viemos

sem medidas...
sem limites...

o que vejo é pouco
a imensidão
é aquilo que não vejo

o que sinto e penso
é todo o universo
a que pertenço

onde enlaço
incorporo
penetro
entranho
conheço

sou e não sou...
porque : existo não existindo

vendo o que não alcanço
com olhos do meu eu
que me parece o outro
que desconheço...

fala-me de mim...meu amor

joaquim vairinhos, in "15 Poemas para Ti"


Ela era pesada
disforme
mal vestida
anafada
mal arranjada

era gorda e feia

em dona marta
favela intervencionada
morava

botafogo era ali

tez branca
nuns olhos verdes
pintados sem tinta
parecia santa às vezes

tinha um sorriso lindo
num olhar ardente
por onde passavam
oceanos de estórias
que atirava à minha
história
em dias de conversa
de perdição...

de angola contava
lendas
das terras da lunda
ao namibe


chegara aqui
de procuração
pelo português antónio
que a trouxe
pela mão

botafogo era ali

como era bela
a Mónica feia
gorda
que vendia livros
usados
flores em primeira mão
que antónio carregava
para a banca da estação

ontem fez sol
ontem fiquei triste
ontem ela
a gorda feia partiu
já não mora ali

da favela dona marta
mudou-se para s.joão
terra de todos
que
de partida vão

vi
aprendi
saudosamente
com ela
na grandeza de sua alma
que feiúra e beleza
coexistem na harmonia
na cara coroa
da duplicidade do universo
presente na natureza

abracei António
no sortilégio das lágrimas
que pacificam consciências
naquele lugar
de exauridas existências.

emilio casanova, in "No jardim dos deuses"