Um Sítio...Joaquim Vairinhos

Um Sítio...Joaquim Vairinhos
Poesia, Prosa e Música.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012






Olhando nuvens escuras no horizonte
num céu carregado,
transporto dúvidas
incertezas
que me deixam perturbado,
penso : como foi possível quereres
que um amor tão ardente,
apaixonado,
se tornasse assim num instante,
numa amizade.
Conheço amizades que evoluem
para grandes amores : amores,
para amizades ? Estranho . Esses
nunca foram amores. 
Amor profundo quando rompe
quebra nosso mundo,
altera nossa mente, 
mexe lá, bem no fundo
com a gente. Veste-se de raiva. Alimenta-se
de ódio. 

Como ser amigo de quem amei
profundamente ?

Emílio Casanova, in "Tanta coisa para dizer"

quinta-feira, 13 de setembro de 2012





Será que vou esquecer teu nome ?
Porque escrevo - então - se as pedras que piso
não guardam os silêncios, 
que idolatro em altares recolhidos nas pétalas
de rosas férteis, 
nascidas em musgos de cor da lua, espelho
de alvoradas anunciadoras de horizontes brancos
novos - porque usados em mentes alegres
de criança.
Ah! Sim ... teu nome !
Como ele mexe no universo...
pulando de estrela em estrela,
em vã luta por sonhos reais que construam tua vida,
sempre elevada
por letras bíblicas imortais.
Porque esquecer teu nome ?
Que sentido dar a essa lacuna na memória - quando ele - a dominou ? 
Estranho dilema do amor : ocupa ...reina...domina...
apaga...ausenta-se...definha.

Emílio Casanova, in "Tantas coisas para dizer "


quarta-feira, 12 de setembro de 2012



Naquela linda madrugada 
em que te deitaste tarde a meu lado 
- lembras-te ?
Aquela em que raios de lua de agosto 
me batia num rosto cansado
de esperar,
pela tua presença
que apagasse a luz do luar
no meu olhar...

e, tu não chegaste,
esperaste
que a lua passasse,
para na escuridão acordar
a noite...escondendo teu olhar
ocupado por outro rosto.
Sabes, a partir dessa aurora
deixei de gostar do luar de agosto
no teu olhar e,
esqueci teu rosto nas pedras do luar.

emilio casanova, in "No Jardim dos Deuses".
ilustração de Max Ernst.


Bruxelas/Paris/Rio

Cara, estou na merda...na merda! Entendes,
que é estar na merda? Porra: - já me sentei
nos bancos da igreja do sablon,
calcorreei corredores e salas de catedrais
encharquei-me de shoppings.Tipo da gávea ao pontal. 
Jardins e parques.
Até Paris arribei.

Cara...estou na merda! Com vontade de tudo deixar.
Partir...partir para qualquer nenhum lugar.
Estou na merda...sem cheirar!

Cara, quero voltar para teu grão de bico -
aquela sopa - teus lençóis lavados cheirar.
Quero encontrar teu abrigo.
Aqui - querida - estou sem gosto -
com aquele charuto - com aquele wiskie -
pra aliviar. Que merda de cidade de chumbo
em colarinhos.
Sol aos pinguinhos : frio de rachar, arrancando
meus ossos do lugar.

Cara...eu me vou...quero ir. Pra teu Brasil.
Eh Rio ! Aguarda por mim.
Eh Rio ! Manda samba pra rua...quero me
divertir - aquecer no calor - pra beber teu
sangue morno quente do sol - pra beber
teu suor na pele duma devassa loira
bem gelada que rola redonda como aquela -
bola. Eh Rio...avisa que estou chegando...
das trevas douradas fugindo.
Eh europa...fui !

Emilio Casanova, in "Tantas coisas pra dizer ".


Toda a chuva que cai
resvala em mim numa
profusão inesperada,
que cala fundo em minha alma,
água esverdeada
escorrida pela esperança
de quem quer.
Lança no desejo
o alcance da terra prometida
do éden, da maçã...em serpente

enrolada naquele amor - ardente.
E só ele.
Que persiste - adoça. Fere,
magoa, mas existe. Voa.


Emilio Casanova, in "No Jardim dos Deuses"

segunda-feira, 10 de setembro de 2012



Saí caminhando com destino num passo, moderado.
A copa das árvores corriam para mim em sombras
acolhedoras.
Pensamentos acompanhavam-me, nessa
viajem de sombras. 
A vida fragmentada em portas e
janelas mostrava em vitrines de cenário diferenças
de olhares. 
Brisa dolente marcava cadência no bailado
das folhas chamando rendas de azul celeste

para dourar tarde num fim de dia.
Amores cruzados circulavam
em doce harmonia nas células dum corpo
trémulo de ansiedade pela longa espera. Saudade.
Quando tua silhueta surgiu...bem viva para mim,
trazias aquele vestido amarelo com laço bem
apertado na cintura estreita...bem estreita,
tantas vezes medida pelo desejo do meu abraço.
No vermelho bem vivo do teu batôn li histórias
que me encantam. E, como esses teus lábios
dizem coisas...contam coisas. Sugerem
sempre aquilo que desejo - as palavras - que os
amantes anseiam : - como te amo !
Sorriste. Sorri.
Nos lábios nos encontrámos deixando nos meus
a cor que sai dos teus.
Demos a mão; caminhámos de cintura apertada
não dizendo nada. Dia foi-se - escureceu - noite
brilhou no céu.
Amanhecemos juntos com teu vestido amarelo
enrugado.
Florido de amor.

Emilio Casanova


Ilustração...O beijo de Klimt

Como é vã esta caminhada,
que rejeito !
Transporto nos braços
sementes do tempo, 
no coração dentes de fogo,
na cabeça castelo de cinza...

e caminho: - com pedras na garganta
pintadas de sonhos,
mal geridos por mentes brilhantes.
Pensamentos amargam língua de homens, e
seios de mulheres que se ligam nas redes
douradas...criando tramas;
na espiga do tempo que transporto
com retalhos de história,
mergulho nas colinas de camas cobertas
de flores silvestres : - como preparando sonhos.
Imagino a beleza de os criar; engravidando
espíritos em arcos de luz...prenhes de sensações.
Sim...
porque como diz o poeta - a vida cabe
nos sonhos. Por aí caminharei !


Emiílio Casanova


Ilustração Camile Pissarre