Um Sítio...Joaquim Vairinhos

Um Sítio...Joaquim Vairinhos
Poesia, Prosa e Música.

domingo, 2 de outubro de 2011

pássaro


voei de sul em sul
á procura de um norte
no sul
voei em bando
num pássaro só
tal mãe e seus filhotes
que não conseguem voar
desejei-me pássaro
com sua vida breve
rasa sua ambição
seu sono leve
vida no sentido 
do éfemero
ninho não é casa
é estação
é berço
desejei ser pássaro
tem bagagem não
fronteira ou fila 
de apalpação
passaporte não
polícia alfândega 
ou inspeção
cheguei
como pássaro de
arribação num rio
molhado de confusão

Emílio Casanova, in "ninguém compra"

quem perdeu


Acordei com pressentimento de quem perdeu,
Amargo sabor de estado desejado,
Inalcançado.
Sentimentos cruzados num labirinto fechado
Qual fervor imaterial que pereceu.
Partiste musa minha,
Alicerce de meus devaneios poéticos,
Âncora de amor querido,
Partiste pelos caminhos da realidade,
Rompendo a magia de flashes de felicidade.
Te encontrar não preciso,
Existes no meu sangue
Circulas em mim em espirais eternas
Que florescem em renovadas primaveras.
Quem te perdeu...não sei, sei que não fui eu.

Emílio Casanova 

amei-te uma noite...


amei-te uma noite...


quando a janela se abriu estilhaçando
                                  silêncios   monotonias  e pausas...
corri apressadamente com inimigo
                                                               vento na mente
a calma da aurora queria silenciosamente
sossegar a agitada noite dos amantes
                             deixei-te enleada na alvura de lençóis
amarrotados pelo esforço caloroso
da  noite comungada nos nossos corpos
                                                   vivos de alegres amorosos
fechada a janela como quem guarda
             um segredo ...                    voltei a ti voltei a mim
na procura do silêncio descansado 
                                                    do amor partilhado
reencontrei-te na encruzulhada de uma paz 
                                                                 de repouso
e de ânsia de uma nova refrega....
                                                               entregámo-nos como se o dia fosse acabar
nem os vidros estilhaçados da janela
                                   que  o vento matinal primaveril 
                                                      quebrou  união poderosa de dois corpos em extâse


Emílio Casanova, in “Maria”

copa minha



Copa minha

Acordei com o sol brincando com meus cabelos
na cama, senti seus longos dedos matinais
primaveris,  acariciando meus olhos
sonolentamente  preguiçosos, bocejei.
Decididamente larguei lençóis e almofadas,
sai para a calçada mais pisada da
adorada  Copacabana...
Misturei-me com cariocas apressados
em caminhar, caminhar por caminhar
muitos sem olhar
para a beleza do mar,
como carreiros humanos de formigas,
rotinados autómatos...
e as belas ondas do mar  ali,
tão perto do olhar.
Passei por Drummond eternamente
sentado... por Dorival  carregando seu violão,
poeta e músico que se deliciaram com as curvas
 das belas moças e da princezinha do mar...
Levantei meu olhar até ao Pão d’Açúcar
 invocando deuses  e Iemanjá ,
lamentando a vã ilusão humana ... quando não temos
queremos  quando temos  não vemos...
Copa bela Copa.

Emílio Casanova

verão


Tarde estival, lânguida, preguiçosa
Invade, absorve, toma conta da mente
Na frente ar escaldante sobe d'areia
Sonolento mar espreguiça-se docemente
Adormeceu a brisa numa siesta frívola, morna
Lubrificados corpos reluzem tonicamente azulados
Agarro a moleza, sugo o ar quente
Liquefaço-me na dormência dum corpo abrasador
Agarro a alma penetrando no seu torpor
Mergulho no mar calmo, docemente salgado
Invasor de corpos sequiosos, deleitados
Agarro a magia de olhares curvados
Nos prazeres dos raios do sol
Satisfaço-me brindando ao deus verão

Emílio Casanova, “Coisas do Coração”

Talvez


Talvez...
não sei quem és
saberá alguém quem somos
nunca te vi nunca te sonhei
não te imaginei nem te procurei
nunca te quis
saberá alguém querer alguém
porque então estes versos
sem sentido sem razão
vazios no ar que respiro
será que aspiro
um desejo em construção
a ambição estará em mim
de conceber um amor
estranho no meu interior tal concepção
repentina mutação evolução mágica
não encontro explicação
pronunciação sem aviso
será eterna magia do coração
que tudo transforma
deixo aos românticos a explicação

(Emílio Casanova, "Coisas do Coração")

sonho


Da paixão, dos afetos,
dos teus sorrisos,
construo um sonho.
Caminho no tempo de horizontes,
vividos, limados, escurecidos,
de enlouquecidos fantasmas
que subjugaram o consciente,
adormecendo sentimentos,
calcando emoções de percursos tortuosos,
foragidos da sedução da vida.
Sonho o caminho das tuas mãos,
a maciez do teu peito,
a rigidez dos teus mamilos
sobre o meu rosto.
Solto os diabos enraivecidos,
os fantasmas carcomidos,
ateio fogo à floresta
e voo na brancura alva
do teu ventre, passado,
futuro e presente.
Emílio Casanova, "Coisas do Coração"