Um Sítio...Joaquim Vairinhos

Um Sítio...Joaquim Vairinhos
Poesia, Prosa e Música.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Do ser ou não ser do cara ou coroa
começo a estar farto
do branco ou preto
do rico ou pobre não mais suporto
porque nos enrolamos de fatos  feitos
de ditos e não ditos...
Porque nos amamos e nos odiamos
porque do prazer transformamos
desprezo e mal dizer
será que está na gente amarmos e sofrermos
permanentemente  enquanto vivermos.
Que ódio me dá esta certeza
que traz a vida agarrada e presa
condenada de hipocrisia dia após dia.
Emílio Casanova, in “Graça”

A festa do silêncio


                                
Sinto os sons que me rodeiam
Na alvura dos silêncios das nuvens
Na espuma líquida do mar
Procuro encostas dos vales
Onde o sol costuma mergulhar.

A música do pensamento
Vem em festa o silêncio festejar
No ar espreguiço meus braços
Agarro os sons do momento
Na esperança de os ver dançar.

Sobem folhas rodopiam folhas
Crianças sussurram jogos de agarrar
Flores calam fundo amores
Reina  a nudez na hora
Beijos silenciam dores
Calai-vos,  chegou a voz
Da bela aurora.

Emílio Casanova, “Ninguém Compra”

Farrapos negros e véus
tapam o céu
rodopiam asas brancas
sobre o mar em chuva

Sem despedida em terra
o tempo voa na areia
com vento em companhia

Nas asas da nostalgia
Agosto está de partida
gaivotas não sabem dizer adeus
restam pela maresia

Emílio Casanova, in "ninguém compra"

Curvas

Meu amor,
no amor
não há retas
nem curvas,
as curvas
ficam retas
as retas ficam curvas.

(Emílio Casanova,"Coisas do Coração")

Tudo


Tudo trago no meu peito
Todas as pessoas que conheci
Todas as ambições que sonhei
Todos os erros que cometi
Todas as paixões que adorei
Todos os lugares por onde passei
Todos os portos onde desembarquei
Todas as ilusões que alimentei
Todas e todos estão sempre em mim
Bem dentro do coração
Tão cheio que está sempre aberto

Emílio Casanova, in “ Coisas do Coração”
trago em minha mão
na palma gravado
curvas lidas
por sinas de incompreensão
sulcos de solidão

trago no meu rosto
rugas de cansaço
que inundam meus olhos
buscando no seu traço
leitos de rios navegados
cúmplices de prazeres
na memória do tempo

trago na minha boca
o sabor amargo doce
dos teus lábios
feridos de solidão
marcados de ilusão
em ilusão

Emílio Casanova, in "Coisas do Coração"

de mim

De mim

Tive uma avó como toda a gente,
uma bisavó como ninguém
tinha saias até ao chão,
cheirava rapé,
nasceu no século desanove
e não tinha vintém.
Ensinou-me a acreditar
que deus não existe,
os santos também não,
que o diabo atenta,
e que fátima só
acredita o cristão.
Pediu-me  pra não roubar,
pra não matar,
pra não maldizer,
e nunca humanos, animais e plantas
desconsiderar.
Abriu-me portas de catedrais
palácios  de conviver,
deu-me asas de longo alcance,
visão de pássaros urbanos.
Iluminou-me os vales do saber,
contando-me histórias
de quem não sabia ler.
Amou-me como minha mãe,
despediu-se como se voltasse,
encontro-a vezes e vezes
nas retas da decisão,
Maria foi seu nome,
vai e vem nas vagas do tempo
nas curvas do coração.
Emílio Casanova, in “ninguém compra”.