Um Sítio...Joaquim Vairinhos

Um Sítio...Joaquim Vairinhos
Poesia, Prosa e Música.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Tudo


Tudo trago no meu peito
Todas as pessoas que conheci
Todas as ambições que sonhei
Todos os erros que cometi
Todas as paixões que adorei
Todos os lugares por onde passei
Todos os portos onde desembarquei
Todas as ilusões que alimentei
Todas e todos estão sempre em mim
Bem dentro do coração
Tão cheio que está sempre aberto

Emílio Casanova, in “ Coisas do Coração”
trago em minha mão
na palma gravado
curvas lidas
por sinas de incompreensão
sulcos de solidão

trago no meu rosto
rugas de cansaço
que inundam meus olhos
buscando no seu traço
leitos de rios navegados
cúmplices de prazeres
na memória do tempo

trago na minha boca
o sabor amargo doce
dos teus lábios
feridos de solidão
marcados de ilusão
em ilusão

Emílio Casanova, in "Coisas do Coração"

de mim

De mim

Tive uma avó como toda a gente,
uma bisavó como ninguém
tinha saias até ao chão,
cheirava rapé,
nasceu no século desanove
e não tinha vintém.
Ensinou-me a acreditar
que deus não existe,
os santos também não,
que o diabo atenta,
e que fátima só
acredita o cristão.
Pediu-me  pra não roubar,
pra não matar,
pra não maldizer,
e nunca humanos, animais e plantas
desconsiderar.
Abriu-me portas de catedrais
palácios  de conviver,
deu-me asas de longo alcance,
visão de pássaros urbanos.
Iluminou-me os vales do saber,
contando-me histórias
de quem não sabia ler.
Amou-me como minha mãe,
despediu-se como se voltasse,
encontro-a vezes e vezes
nas retas da decisão,
Maria foi seu nome,
vai e vem nas vagas do tempo
nas curvas do coração.
Emílio Casanova, in “ninguém compra”.